MARIO CRAVO NETO E MAUREEN BASILLIAT

         Durante a segunda aula do Ateliê Integrado de Arquitetura, foram dados a nós dois fotógrafos para que pudéssemos expandir o nosso repertório cultural e começar a analisar alguns aspectos da fotografia, como o enquadramento e as sombras. Ao grupo em que eu estava foram designados os artistas Mário Cravo Neto e Maureen Bissiliat. Cabe, então, discorrer um pouco sobre suas vidas e selecionar duas fotografias de cada.

    Mario Cravo Neto foi um importante fotógrafo versátil baiano. No início de sua carreira, trabalhou com esculturas acrílicas e, depois, migrou para a fotografia. Suas imagens incorporavam a temática do Candomblé e catolicismo, além de serem recorrentes a baixa luz, o enquadramento fechado e o foco “crítico”. Ademais, foi justamente através retrato sutil e discreto da religiosidade do Candomblé que Cravo Neto se destaca, uma vez que, por meio dele, ele conseguia engajar e sensibilizar os observadores de suas obras.

    Sheila Maureen Bisilliat é uma fotógrafa inglesa e naturalizada brasileira. Ela se mudou para São Paulo quando ainda era uma jovem adulta e começou a explorar a fotografia. Ficou alguns anos fora do Brasil e, ao retornar, criou raízes e se dedicou ainda mais a tal arte. Ela recorria ao seu fascínio expressionista e introduzia o claro-escuro em muitas de suas obra, além de possuir uma estética sofisticada e intensa sensibilidade. Além disso, ela trabalhou com diversos escritores brasileiros, como Guimarães Rosa e João Cabral de Melo Neto, para a inserção de sua fotografia como um elemento narrativo nas obras literárias.

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"Deus da Cabeça" - 1995

    Nesta primeira imagem selecionada de Mario Cravo Neto, é possível perceber o seu recorrente uso de tinta branca e de um jogo de luz e sombra com a finalidade de se obter textura que contrasta com a pele, tartaruga e cabelo do capturado. É imperativo pontuar que a baixa luz, o enquadramento fechado, as texturas criadas e, também, as formas utilizadas pelo fotógrafo provocam uma sensação táctil no observador, ao mesmo tempo em que se explora com maestria a relação entre o homem e o objeto. A temática retratada em “O Deus da Cabeça” remonta ao sagrado e a emotividade que aproxima tanto Cravo Neto da fotografia.

"Homem com Dois Peixes" - 1992 

Nesta segunda foto, fica evidente a decisão de Cravo Neto em fotografar em estúdio. Ao criar em tal meio, o autor monta o seu cenário, detém mais controle e, assim, coloca o objeto fotografado em primeiríssimo plano, ao optar por um fundo preto, que o destaca ainda mais. Ademais, ao analisar com mais precisão a obra “Homem com dois peixes”, têm-se a percepção de uma iluminação proveniente da esquerda que traz luz às escamas dos peixes, iluminando a parte central e do topo da foto, ao mesmo tempo em que cria sombra na região das costas e lado direito da fotografia.




Foto do conjunto "A Guimarães Rosa" - 1974

Em primeira instância, o uso da Regra dos Terços, por meio da qual a foto é dividida igualmente em duas linhas verticais e duas linhas horizontais, com o foco de interesse localizado em um ou mais dos pontos de encontro, utilizada por Maureen Basilliat, confere destaque, a partir da luz, ao quadro central da fotografia em questão, fazendo com que vaqueiros estão. Outra característica nas obras fotográficas da artista é a utilização da luz natural, uma vez que muitos de seus retratos foram feitos em viagens com o propósito de registrar um Brasil “desconhecido” ao trabalhar com diversos autores para a construção de imagens como objetos narrativos. Não obstante, o ponto de fuga coincide com a iluminação central, o que encaminha e carrega o olhar do observador, além de criar sombra em toda a parte inferior.


"Menino Anjo": sonhos e voos... - 1965

A luz da última foto selecionada é oriunda de uma janela que se localiza à esquerda do enquadramento, fazendo com que apenas uma parte de sua face, de sua asa e o local fora da janela estejam iluminados, enquanto quase todo o resto está sombreado. Além disso, é interessante ver a interação da luz e da sombra com as texturas dos diferentes elementos da foto. Ressaltarei, aqui, as duas alas das asas, uma vez que o lado que se encontra na parte esquerda da foto é caracterizado pela claridade e quase homogeneidade de seu aspecto, enquanto o lado oposto é marcado pelas sombras dentro do próprio objeto, o que permite uma visualização mais detalhada e texturizada, estabelecendo camadas e cortes e provocando a reflexão daqueles que a veem.

Para finalizar as análises, é impreterível estabelecer comparações e semelhanças entre ambos os fotógrafos. Primeiramente, Mario Cravo prefere a ambientação do estúdio e suas fotos revelam um caráter mais estático, enquanto Bisilliat fotografa com luz natural e captura uma sensação de movimento. Segundamente, é possível observar certos pontos de convergência entre ambos ao dispor um olhar mais atento ao examinar a obra “Deus da cabeça” e “Menino anjo”, posto que ambos utilizam as texturas e o contraste entre o preto e o branco para promover uma sensação táctil e cativar o olhar do admirador. Por fim, é evidente que ambos, mesmo que com suas diferenças estilísticas, compartilham fundamentos da fotografia e transpõem suas visões e valores ao produzirem suas obras, além de terem, certamente, influenciado muitos jovens fotógrafos.


Auto retrato de Mario Cravo Neto

Foto de Maureen Basilliat


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